Arquivo da categoria: Um textão e mais nada

Diferentemente do pessoal que compartilha as ideias no Facebook, eu vou colocar alguns textões por aqui, alguns pensamentos e algumas ideias.

mesa cheia, coração cheio e barriga cheia

fiquei um mês sem fogão, e não foi bom. cozinhar pra mim sempre foi uma válvula de escape. não estou falando de fazer o arroz e feijão de todos os dias, mas sempre que me sinto ansiosa e/ou preciso deixar a cabeça vagar por algumas horas, invento alguma arte (como diria a minha mãe). me perco nas receitas que tenho salvas em um caderno, fuxico alguns livros encalhados, misturo algumas receitas e faço alguns experimentos. nem sempre fica bom, mas são sempre horas que me alegram e me fazem bem.

na minha família, a cozinha sempre foi importante. as maiores lembranças que tenho são em volta da mesa, no café da tarde da casa da minha vó. a gente comprava pães, frios e minha vó fazia cuscuz – do nordestino – e a família se encontrava no final de semana. era conversa jogada fora, risadas, broncas, bagunças, tudo em volta da mesa da cozinha. mesmo depois de minha avó falecer, os encontros continuaram entre tios e primos, seja na hora do café da tarde ou num almoço de domingo. sem falar nos pratos de pirão de frango, do feijão apimentado que meu avô cozinhava, das laranjas que minha vó cortava e distribuía para a netaiada, a cozinha cheia de tarefas distribuídas nas vésperas de natal, a salada de fruta com mil mãos participantes, as receitas de gelatina que sempre davam errado, enrolar docinhos antes das festas de aniversário, fazer “pickles” para acompanhar a cerveja.

trouxe um pouco disso comigo. vira e mexe gosto de juntar alguns amigos em casa e fazer um café da tarde, ou um jantar, ou qualquer coisa que nos deixe em volta da mesa por algumas horas, conversando, rindo e trocando histórias. comida pra mim é alegria e poder compartilhar com quem a gente gosta é melhor ainda.

“a 100 passos de um sonho” junta duas culturas de dois mundos diferentes: o indiano e o francês. de um lado mostra toda a alegria, os laços, a resiliência e luta da família indiana e a sofisticação, arrogância e mal humor francês. além da comida que é o tema principal do filme, a história aborda as diferenças étnicas, a intolerância e ainda tem espaço pra um romance a la sessão da tarde. um filme leve, gostoso, com humor e clichês mas sem ser cansativo. perfeito para um domingo pós almoço.

“street food” é uma série do Netflix que impossível assistir de estômago vazio. e mesmo de barriga cheia, a série dá água na boca. cada capítulo conta uma história diferente com comidas de rua encontradas na Ásia. além de tudo, a imagem da gravação é feita de forma intensa, imagens da comida em câmera lenta, a comida sendo preparada, o fogo, os ingredientes e a história que nos tocam a alma, fazem com que a série seja deliciosa em várias camadas. a comida de rua é mais do que isso, é história, é tradição, é superação, é toda uma vida.

“kitchen stories” é um aplicativo que ultimamente me inspira a fazer receitas novas. bem fotografado, fácil usabilidade, dá pra criar receitas próprias, pra pegar receitas de colaboradores e claro, as receitas do próprio aplicativo. tem receitas para todos os níveis de dificuldade, tempo e ingredientes e tem vídeos de processos para ajudar nas receitas. (em inglês)

um bom livro pra ler em qualquer lugar

a última vez que escrevi tinha decidido desativar minhas redes sociais (bons tempos). durou cerca de três meses e durante esse tempo, usei as horas que ganhei para desentulhar uns bons livros que há tempos ficaram parados no meu Kindle; pra pensar na vida e surtar algumas vezes; estudar alemão que vez ou outra dou uma negligenciada; e fazer umas coisas diferentes por aí. pra mim foi bem doido administrar ansiedade que estar “de fora” causa; um medo de estar perdendo alguma coisa, enquanto todo mundo em volta está checando o celular com certa frequência.

mas depois de três meses, caí na tentação e, uma vez mordido o fruto, acabei por me lambuzar. reinstalei Twitter, Instagram e Pinterest, estava oficialmente de volta, e por consequência, voltei também a perder algumas horas da minha vida. tirei algumas conclusões (óbvias) com essa mini experiência: a gente perde muito tempo consumindo NADA, e acaba sendo meio irracional, talvez como um alívio ou como vício mesmo, sei lá. certas redes ou notícias ou perfis podem ser tóxicos (odeio usar essa palavra) dependendo do tipo de conteúdo que se consome e do estado de espírito que você se encontra; muitas vezes que eu acessava qualquer rede, passava raiva e me sentia mais negativa do que aliviada.

talvez eu nunca consiga sair de todas as redes, mas agora tento deixar o máximo que posso um ambiente saudável, consumindo um conteúdo que vai me deixar pra cima, que eu possa aprender alguma coisa, seguir pessoas/perfis que admiro e me inspirem, coisas que vão me dar a sensação de que pelo menos não perdi tanto tempo assim. não é fácil, mas sigo ajustando e acho que dá para encontrar um meio termo, onde eu não precise me abster mas também não me faça falta. é o famoso tentar achar o equilíbrio das coisas.

esse ano acabou se tornando o ano dos livros para mim. assim como Lula,  aproveitei o tempo que tinha livre pra ler alguns livros (até o momento – Agosto – li 24 livros). lembro que quando era mais nova não gostava muito de ler. Invejava minha irmã porque ela sempre estava lendo e com prazer, e eu sempre fui cobrada para também ler muito, mas eu sempre tive isso como uma obrigação. não me culpo. quando a gente é jovem, empurram pra gente ler Machado de Assis ou Eça de Queiróz. não que suas obras sejam ruins, muito pelo contrário, mas envolve toda uma complexidade e interesse que a jovem Dayana não tinha.
Esse ano reaprendi a ler. li coisas que eu realmente queria, que fui buscar, coisas do meu interesse. coisas que tem a ver comigo e com todo esse descobrimento que faço de mim e do mundo a cada momento.

ai Gabi, só quem viveu sabe! quem viveu nos anos 90 sabe como era entrar na internet, abrir o Kazaa e baixar uma música, ou ao menos tentar e torcer pra conexão não cair e/ou a música baixada ser a mesma que a escolhida. esse livro conta como a história da pirataria começou na internet e vai desde a criação do mp3 até o formato que a gente conhece hoje, pelo Spotify. conta toda a invenção, o mercado musical e a ilegalidade da distribuição das músicas. é muito legal pra quem viveu essa experiência dos anos 90, de fazer downloads de CDs completos pelos sites ilegais e também é legal pra entender toda essa linha do tempo que foi curta, porém cheia de histórias.

o livro começa com um crime: duas crianças são mortas pela sua babá (não é spoiler, é a premissa do livro). tem uma narrativa um tanto quanto perturbadora, é um livro intenso que descreve bem as situações e que te leva pra dentro da história. toda história acontece num cenário onde a mulher é colocada em segundo plano por conta da maternidade; abre a mão da sua vida, da sua profissão e é completamente negligenciada e pressionada pelo marido para assumir o papel de mãe. fala sobre diferença social, do papel da mulher na sociedade, das diferenças de classe e tem um assassinato. é um livro intenso e ótimo para ser devorado.

esse livro conta várias pequenas histórias sobre o cotidiano feminino nos presídios e nos traz a realidade da vida de mulheres nessa situação. são histórias de amor, de companheirismo, de liberdade; mulheres que são marginalizadas por estarem presas, por estarem grávidas de presos. excluídas por suas famílias e parceiros, excluídas pela sociedade, negligenciadas pelo Estado. além disso, mostram histórias de corrupção, torturas, as condições precárias que se vivem. é uma pancada que nos faz pensar fora da nossa bolha do começo ao fim, e nos faz compreender o que leva o ser humano ao limite.

Tá frio lá fora

Ta frio lá fora.
As folhas começaram a cair.

Você sabia que as árvores hibernam no outono/inverno e por isso as folhas caem?
E no processo de hibernação, a árvore para de fazer fotossíntese e as folhas tomam de volta suas cores originais… marrom, amarelo, laranja, roxo, bordô…
E enquanto hiberna, a árvore se protege.
Ela poupa energias, se protege dos desgastes, do tempo.
Ela tá lá viva, quietinha, esperando tudo  melhorar pra voltar a exibir suas folhas verdes, flores e frutos.

As vezes a gente tem que olhar pra dentro.
Cuidar da nossa planta interna.
Tirar tempo para as coisas, para amadurecer as ideias, os pensamentos.
As vezes tudo tem que hibernar até tomar forma, até florescer.

Tá frio lá fora.
As folhas vão caindo cada vez mais.
As cores vão se revelando cada vez mais.
Tudo vai ficando alaranjado, nesse tom de sépia.
Cada momento tem sua particularidade, seu brilho e sua importância.

As vezes esse é o momento.

Vamos colocar a mão na consciência

Sem chocolates, flores e jantares.
O dia de hoje que é sempre lembrado com mimos vazios e estéticos deve ser um dia pra pelo menos levar a reflexão. O dia de hoje é um bom dia pra tirar a mão do celular e colocar a mão na consciência.  Não queremos mimos, não queremos uma ajudinha em casa porque é dia das mulheres. Queremos igualdade, queremos respeito. Sair na rua sozinha sem medo; medo de ser assediada, medo de não voltar pra casa. E QUEREMOS TODOS OS DIAS.

E, para todos nós, valorize as mulheres a sua volta. Amigas, mães, tias, colegas de trabalho. Não desmereça o trabalho de alguém só porque é mulher. Não minimize a mulher falando de seu corpo ou seu ciclo menstrual. As mulheres tem que dar duas, três, mil vezes mais duro pra ser reconhecida, pra ter voz e se você também é mulher, você sabe do que eu to falando. Então valorize sempre que puder.
Apoie as mulheres. Não existe esse negócio de rivalidade feminina e se pensarmos bem essa inimizade feminina só existe porque “a sociedade” diz que existe. Vamos nos apoiar e lembrar que a nossa luta é a mesma, estamos do mesmo lado e melhor será quanto mais juntas estivermos. Já é difícil com todo o machismo nos homens, com mulheres também fechando a porta, tudo se torna mais difícil. Apóie, ouça, entenda.
Inspire-se com outras mulheres. Somos rodeadas de histórias e inspirações sempre masculinas. Tem Einstein, Darwin, Freud, Pitágoras… mas no longo da nossa vida a gente poucas vezes escuta sobre quantas mulheres incríveis passaram pela história também. Quantas mulheres na história você conhece? Procure, conheça e conte pra outras mulheres – e outros homens também- para as crianças. Deixa as mulheres inspirarem.

Que tenhamos mais empatia, que passamos a admirar cada vez mais as mulheres – não pelo seu corpo ou beleza e sim pelo que somos -, que sejamos cada vez mais respeitadas.

Tamo juntas <3

Sobre a vida

Eu não sei ainda como lidar com a morte, nem falar sobre ela. Não é uma coisa que penso freqüentemente e nem me é impeditivo para fazer as coisas. Mas quando me vem a notícia de morte, tenho um mix de sentimentos que brotam dentro de mim e fico refletindo sobre a vida e o quão pouca importância a gente vai dando pra ela.

São dias deixando a vida passar, não fazendo aquela viagem esperando o momento ideal, não mudando de carreira pra não abrir mão do salário já alcançado, juntando dinheiro aos montes pra gastar somente no futuro, não abrindo uma garrafa de vinho caro até um momento especial aparecer. E a viagem fica pra outro ano, o dinheiro fica lá no banco, o vinho fica guardado até virar vinagre e o tempo vai passando e tudo vai ficando pra depois.

Pois é, a vida não espera o dia ideal, não espera o tempo ideal, não espera você ficar pronto pra começar. Ela simplesmente acontece, enquanto eu estou aqui sentada escrevendo esse texto, enquanto ao meu lado meu cachorro está dormindo enrolado na coberta, enquanto não muito longe daqui minha mãe e meu pai estão trabalhando e alguém está discutindo assuntos mais importantes que esse.

A vida acontece.

Então, não deixe pra depois.
Não deixe pra um futuro longe demais, não deixe pra amanhã, não deixa a preguiça tomar conta, não deixa de lembrar o que você quer, não deixe de se colocar em primeiro lugar, seus sonhos e vontades, não deixe de se importar com os outros também.

Não deixe.

Descubra um jeito de tornar sua vida leve, não carregue os pesos que não são seus. Não carregue raiva demais, ciúmes demais, inveja demais, trabalho demais. Ria com seus amigos, passe um tempo com você mesmo, passe tempo com outras pessoas, se descubra, descubra o mundo. Proporcione momentos de alegrias, dance, converse, sinta seus sentimentos, se permita. Faça agora o que dá pra ser feito, o que quiser fazer.

Aprecie agora os bons momentos, aproveite agora a sua vida, enquanto ela acontece, aconteça junto com ela.

Porque um dia tudo simplesmente acaba.
E as outras vidas vão acontecendo.