Arquivo da categoria: Um textão e mais nada

Diferentemente do pessoal que compartilha as ideias no Facebook, eu vou colocar alguns textões por aqui, alguns pensamentos e algumas ideias.

Assim como os cachorros

Em um dia de sol e céu azul em meio ao inverno de Berlim, fui dar uma volta no parque e aproveitar o belo dia. Os dias de sol costumam ser raros no inverno – apesar desse ano o sol ter aparecido bastante -, que normalmente é acompanhado de dias frios e cinzentos e algumas vezes neve. Então, quando o sol aparece, as pessoas saem as ruas com seus animais, crianças ou sozinhas mesmo para aproveitar a vitamina D natural. Apesar do sol, o dia ainda é frio e até mais frio do que um dia cinzento seria, mas o sol convida todos a sairem de casa, inclusive eu.

Nesse dia, me sentei em um banco estrategicamente localizado entre o sol e uma colina, onde normalmente os donos levam seus cachorros e os soltam para brincarem ao ar livre. Alguns minutos ali sentada, três pessoas chegam acompanhadas de seus três cachorros. Raças diferentes, comportamentos diferentes, idades diferentes, porém os três carregavam em si uma imensa alegria de estar naquele parque, aproveitando também o dia de sol. Seus donos começaram a atirar os brinquedos e eles desciam e subiam o pequeno morro em segundos, vezes esbarrando uns nos outros, vezes tropeçando nos buracos ali encontrados, mas com uma excitação e alegria que fizeram aquele momento ser único e exclusivo.

E dentro das minhas ideias malucas fiquei pensando em como seria viver a vida na perspectiva de um cachorro, como se a vida fosse apenas o dia de hoje, como se não houvesse preocupações acumuladas até o dia acabar. Como seria viver um dia de cada vez em que todos os momentos fossem aproveitados ao extremo, onde as pequenas alegrias fizessem o nosso dia valer a pena, as coisas simples.

Diferentemente dos cachorros, sabemos que a vida tem um amanhã e um depois de amanhã. Mas acabamos que estamos sempre ocupados demais, correndo demais, fazendo coisas demais, que um dia de sol na colina passa por nossos olhos e não ganham o mesmo brilho, nem a mesma graça. Se só por um dia nos desconectássemos de tudo e aproveitasse apenas o dia de hoje, sem MAS. E, assim como os cachorros, aproveitássemos mais as colinas no parque, os brinquedos, a liberdade e os dias de sol.

Mas né, isso foi só um pensamento que me ocorreu enquanto eu observava a felicidade simples e até inocente daqueles cachorros enquanto eles subiam e desciam da colina atrás dos seus brinquedos para então depois irem relaxados e realizados para suas casas.

Um dia cinza

Tentei colorir de azul o céu cinza
tentei fazer planos, fabricar sorrisos e ficar alegre.
Tentei deixar o frio ser apenas um detalhe,
a cama por fazer e a louça do café da manhã suja na pia.
Tentei ser espontânea
Tentei ser diferente
Tentei fazer planos

Mas talvez por tentar demais
Por planejar demais
Por esperar demais
Por fantasiar demais
eu tenha falhado

O céu estava azul e ainda assim não tinha cor
Não tinha sorrisos,
Não tinha alegrias
Não tinha presença

E por tentar demais
O dia foi cinza.

 

Desejos para 2018

se despenteie
se conheça
faz aquela maquiagem que você sempre quis
e desmaqueia tudo depois

fique nua, ande pela casa como se fosse sua passarela
visite suas curvas
passeie pelos seus traços 
seus sinais de nascença
suas pintas, sardas

descubra seus gostos
o que te faz sexy
põe um moletom largado
põe a roupa que se sentir a vontade
sinta-se a vontade com você mesmo

se olhe no espelho
faça um carão
jogue o cabelo
tire fotos

se descubra
se permita.

Mulheres de Berlim

Não foi só uma vez.

Quando alguns amigos vieram nos visitar em Berlim, ouvi comentários sobre as mulheres daqui. Ao contrário do que se pensa, não são elogios. São sempre comentários do tipo “Como as mulheres daqui são desarrumadas”.

Berlim é uma cidade onde as pessoas prezam pelo conforto, sejam elas homens ou mulheres. Para se locomover, as pessoas utilizam transporte público, bicicleta ou fazem o percurso a pé, então as roupas confortáveis ajudam – e muito – nessa locomoção. As mulheres vão para bares e baladas normalmente como estão vestida para o dia dia. Sem salto e muitas vezes sem maquiagem e uma “roupa apropriada”.

Há cinco anos atrás meu guarda roupa era completamente outro. Tinha mais de 20 vestidos – compridos, curtos, mangas longas, regatas, floridos…- quase não tinha jeans e roupas confortáveis só as de academia e o pijama. O mesmo acontecia com os sapatos. Por anos só comprei sapatos de salto e que normalmente eram desconfortáveis, algumas sapatilhas sociais e um tênis raramente usado. Lembro de sempre estar com os pés moídos dos sapatos e de raramente me sentir confortável. Os cabelos sempre tinham que estar alisados e prontos, só saia de maquiagem e fazia as unhas toda a semana.

Quando as pessoas vem e falam que as berlinenses não são arrumadas eu tenho outra visão. Vejo que as mulheres daqui são muito mais livres. Elas buscam o conforto, a praticidade do dia dia e estão sempre muito a vontade. As mulheres não estão de salto alto o tempo todo, as unhas não estão pintadas sempre, a cara vezes tem maquiagem vezes não, e ninguém se importa. As mulheres continuam se divertindo como todas as outras, indo a bares, festas, trabalhando, vivendo.

E estar aqui me fez me libertar de muitas dessas coisas também.
Hoje sinto que vivo sem essa pressão de estar sempre “pronta”, seja lá o que isso signifique. Não é errado usar saltos, alisar o cabelo ou se arrumar.
Errado é fazer isso por uma obrigação que nem se sabe da onde veio (na verdade a gente sabe sim). Saber que não são as unhas feitas, os cabelos prontos e certo estilo de roupas que vão me impedir de ser eu mesma e muito menos de fazer o que eu quero. Minha relação com meu guarda roupa mudou, minha relação com minha aparência mudou e hoje já me sinto uma mulher de Berlim.

Mais um aprendizado…

Berlim me trouxe várias oportunidades pessoais e uma delas foi passar a falar inglês. Fiz mil anos de curso, nas viagens para fora do Brasil sempre falava um pouco, mas quando não se pratica, sabe como é, né!? Pedir comidas, entender textos, assistir filmes e séries é completamente diferente de levar uma conversa por algumas horas.

E sempre carreguei essa insegurança comigo: na hora me faltar vocabulário, falar algumas besteiras, verbos e conjugações erradas… enfim. Daí que certo dia conversando com uma berlinense, iniciei a conversa com a frase padrão: “Sorry for my bad english” e tomei um belo tapa na cara.

“A partir do momento que você consegue se comunicar com alguém, quando você consegue estabelecer uma conversa, você não pode dizer que seu inglês ou qualquer outra língua é ruim.”

Sim, ela me disse isso e depois de ouvir essa bela lição, um  novo mundo se abriu pra mim: o da auto confiança. Essa é só uma pequena parte de mim que fica se sabotando o tempo todo; se escondendo, com vergonha de aparecer.
Mas em que isso ajuda, não é mesmo?

Quando a gente acredita na gente, um novo mundo se abre. Quando se entende que não precisamos esperar o momento perfeito ou a perfeição para fazer as coisas, é simplesmente dar o primeiro passo e lidar com as dificuldades conforme for aparecendo.
E que tudo vai ficar bem.

Já dizia a minha avó: quem não arrisca, não petisca (e provavelmente sua vó dizia o mesmo). E por não me arriscar, muitas vezes fiquei só no “e se”. Parece besteira, isso tudo só por conta do inglês? Sim. É uma coisa pequena, mas eu precisava desse tapa, desse pontapé, desse novo angulo para conseguir ver as coisas de um novo jeito.
Pra me permitir mais.
Pra arriscar.

Tudo tá perfeito agora? Claro que não.
Mas são os pequenos passos, não é mesmo…