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Trinta

Eu sempre achei que quando eu chegasse nos 30 anos eu ia ser muito adulta. E talvez por isso eu sempre tive meio que medo de chegar aos 30, porque eu nunca me sentia perto de toda essa “adultisse”.

Sempre fui muito molecona, brinquei até mais do que se espera de uma criança, não levava as coisas muito a sério para o desespero dos meus pais. Pra mim crescer envolvia muito mais responsabilidade do que diversão. Achava que quando virasse oficialmente adulta, ia virar um desses adultos chatos, sérios. Mas não é bem assim. A responsabilidade vem – junto com os boletos pra pagar-, mas vem também a liberdade, as escolhas, a maturidade… ah, como é bom olhar pra trás e ver o quanto mudei.

A vida pode ser divertida, e até mais do que era. É bem clichê mas é verdade: a idade tá na nossa cabeça. Só é limitante quando a gente deixa ser, só é pesada quando a gente coloca esse peso. Tá certo que o corpo cede algumas vezes, mas é o preço a se pagar.

O que seria um desespero pra mim há 10 anos atrás, estar com 30 mais perdida do que quando vim ao mundo, sem filhos, sem trabalho, hoje é um dos motivos da minha alegria. Provavelmente daqui há 10 anos vou olhar pra trás e me sentir uma idiota, e isso é ótimo.

Sigo na vida correndo atrás do meu sonho de criança: ser o pato Donald.

O que você quer ser quando crescer?

Acho que essa é a pergunta mais feita quando você é criança pelos pais, tios e avós: “O que você quer ser quando crescer?”. Da primeira redação da pré escola até o curso pra preencher no vestibular, essa pergunta nos segue por mais ou menos 17 anos e nem sempre sabemos qual a resposta certa (se é que ela existe).

Quando criança, os sonhos são o de ser o mais forte bombeiro, o mais esperto detetive ou até mesmo trabalhar no supermercado porque é muito maneiro andar de patins o dia inteiro (quem nunca?). Mas aí você vai crescendo e a pressão vai aumentando… Então sempre que você pensa numa profissão, você pensa no que condiz com a sua realidade. Por exemplo, na 6º ou 7º série se você joga bem futebol, você vai ser jogador de futebol; se você manda muito bem em ciências, você vai ser um cientista e se você é magrinha e bonita vai dar uma modelo e tanto! Raramente alguma criança pensa em ser um programador de .NET, um engenheiro mecânico ou um contador.

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Mas, quando chega o ultimo ano da escola, você se depara com uma infinidade de cursos e tem que escolher um pra seguir carreira a vida toda. Você passa 17 fucking anos fazendo coisas aleatórias, sem necessariamente ter relação com profissão nenhuma, só coisas que te deixam feliz, mas em um ano você tem que apostar todas as suas fichas numa profissão X.

Aí o jogador de futebol vira analista de sistemas, o cientista vira administrador de empresas e a modelo vira agente de viagens. Não que eles não estejam satisfeitos com suas profissões, muitas vezes estão, mas e os que não estão? E os que escolheram porque tinha que escolher? Os que tiveram que guardar seus sonhos e vontades em uma caixinha esquecida lá no porão, e TEVE QUE trabalhar no que dá dinheiro, na área que tinha muito emprego, no que dava mais segurança e estabilidade.

Sim, eu fui uma dessas criancinhas que virou um adultinho perdido, que FEZ O QUE TINHA QUE SER FEITO e só depois percebeu que não fazia sentido. E foi preciso coragem, oportunidade e muito apoio de quem me conhece e sabia o que eu tava passando para que eu largasse mão do “seguro” para procurar o que me fazia feliz (e ainda estou na busca). Por muitos anos sabia que não estava fazendo o que gostava, mas sempre inventava uma desculpa pra mim mesmo adiando ir atras dos meus sonhos, mesmo não sabendo de fato quais são. Acabei gastando dinheiro, tempo e me desgastando esperando o momento certo.

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A maior descoberta que fiz até agora foi descobrir que o momento certo só existe quando você faz daquele o momento certo. Foi preciso abrir mão de algumas coisas para conseguir outras, como a gente faz com tudo na vida. Longe de mim esperar encontrar o trabalho perfeito. Eu sei muito bem que trabalho não é parque de diversões, e que dá TRABALHO, mas tenho convicção que temos que procurar algo que faça sentido pra gente, pra que por mais que dê muito trabalho, ainda assim faça sorrir e dê a maior satisfação no final do dia.

Ainda não sei responder a pergunta: “O que quero ser quando crescer?” , mas lembro que quando criança, por muito tempo a resposta foi: ” Quando crescer quero ser o Pato Donald“.